Moedas virtuais: boas para quem?

Para expressar o poder das moedas virtuais, vale relembrar o caso do investidor norueguês que, em 2009, desembolsou cerca de 27 dólares para comprar 5.000 bitcoins – uma moeda virtual inventada no ano anterior – e depois esqueceu o assunto, talvez  arrependido por ter gasto, ainda que uma pequena quantia, num ativo tão insólito. Quatro anos depois, Kristoffer Koch, como se chamava o norueguês, leu uma matéria sobre moedas digitais, lembrou do assunto e resolveu resgatar os bitcoins pensando em dar melhor destino àquele dinheiro – algo assim como um prato de salmão defumado com batatas. Ficou pasmo ao descobrir que os seus bitcoins valiam, então, 886 mil dólares. Nada mal. O investimento tinha sofrido uma valorização de 3.281.381%.

O curioso e inusitado acontecimento, tornado público em 2013, entrou para a história da mundo digital. Ninguém espere repetir hoje o golpe de sorte do investidor norueguês. Passados quase 9 anos desde que foi inventada a bitcoin, esse mercado adquiriu um volume expressivo mas ainda luta para conquistar seu lugar ao sol no mercado e na vida das pessoas. Tal como outras inovações disruptivas, a moeda digital tem de transpor algumas barreiras até poder se estabelecer: precisa conquistar a confiança dos consumidores, tem de se mostrar melhor do que os produtos ou serviços existentes e tem de pular o muro levantado pelas empresas que dominam o mercado convencional, entre outros trabalhos hercúleos. No caso da moeda digital, o muro é o sistema financeiro mundial, comandado pelos bancos. É um desafio considerável. A inovação tem de se haver também com as questões regulatórias do Estado, preocupado em evitar a evasão de impostos. E vive sob escrutínio das autoridades policiais em sua caçada permanente aos possíveis canais de circulação do dinheiro sujo ou de fontes de financiamento do terror.

A ideia do dinheiro virtual tem resistido ao tempo, apesar de inúmeras pressões, sobretudo de bancos e instituições financeiras. No último 10 de abril, havia em circulação no mercado pouco mais de 16.200.000 bitcoins  e a cotação média da moeda era de 1.227 dólares. O gráfico da evolução das cotações no ano de 2017 lembra uma montanha russa, tendo variado entre 785 e 1285 dólares. Essa volatilidade que ainda predomina faz da moeda digital um mercado mais apropriado para quem gosta de emoções fortes e certamente não contribui para popularizá-la.

Sob o ponto de vista do mercado financeiro, a moeda virtual é disruptiva por natureza, a começar pelo conceito que adotou. As transações se baseiam em uma rede peer-to-peer (ponto-a-ponto), em que os computadores se conectam entre si sem necessidade de um servidor central. Isso permite que os pagamentos on-line sejam feitos diretamente entre as pessoas, sem passar por uma instituição centralizadora. Para garantir a confiabilidade, todas as transações confirmadas são registradas em uma contabilidade pública chamada “cadeia de blocos” (blockchain), e não podem ser apagadas. Impede-se assim que alguém venda fraudulentamente o mesmo estoque de moedas para mais de uma pessoa. O blockchain é considerado tão bom e vantajoso que está sendo adotado em Wall Street. Especialmente por que o processamento descentralizado utilizado pela bitcoin dificulta os ataques de hackers.

A compra da moeda é um procedimento simples, feito por meio de uma instituição bancária. A compra da moeda é feita através de uma instituição bancária. Os bitcoins adquiridos ficarão depositados em uma conta virtual criptografada e poderão ser usados como meios de pagamento ou em transações financeiras. Outras moedas digitais – a bitcoin não é a única no mercado – seguem mais ou menos o mesmo figurino. E existem concorrentes, como a litecoin que pretendem oferecer um rede mais rápida e eficiente que a da bitcoin.

O anonimato em transações na rede é apontado como um das grandes vantagens da moeda. Ao realizar uma compra, o dinheiro virtual é debitado da sua conta, porém o site não consegue rastrear informações pessoais suas – como nome ou CPF – como acontece com o uso de cartões de crédito tradicionais. A única rastreabilidade é o número do IP do computador usado na transação. Dessa forma, o consumidor consegue se livrar de propagandas indesejadas das empresas e fica mais protegido contra fraudes.

O grande temor dos bancos é que o uso de bitcoins elimina o custo da intermediação das transações. O risco de que o avanço tecnológico promova a desintermediação financeira. Como são poderosos e os interesses em jogo são cifras astronômicas, estão se movendo para modernizar o sistema sem perder o controle que têm sobre o mercado. É uma das reações clássicas aos processos de disruptura.

 


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